22 de julho de 2017


Tempo

Preciso fazer isso antes que o tempo esfrie minha xícara de café.

É preciso chorar, e o tempo é vital. Já não sobra mais espaço para sonhar, poder conversar com o vento, o sol chegou, e me chama para lugares, mas não posso ir, hoje habito uma prisão construída escolha após escolha que tomei. Não nos damos conta, mas somos completamente capazes de construir nossas próprias prisões.

Há saudades do mundo lá de fora, de quando havia tempo para sentar e contar todas mil historias que criei na minha cabeça ou para dar vida e falar dos meus heróis, quando visitava meus amigos um a um depois de sair sem destino, sem hora para voltar, quando a vida não precisava acontecer numa tarde qualquer, ela só acontecia. De quando não havia nada a ser feito depois do almoço, então eu sentava e via como a cidade era linda.

Pai de todas causas, professor de todas as artes, o mesmo tempo que cura feridas da vida, é o mesmo que abre essa em mim e preciso me tratar, preciso de tempo. Primeiramente, tempo para chorar. A dor quer ser sentida, mas o tempo não a deixa sê-la. A vida aconteceu, mas não tive tempo para reconhecer seus fatos. Falta tempo de acertar algumas coisas, de pôr um ponto final a certas historias.

Quis ter tempo para chorar, tempo para sair, para lembrar de mim, saber como era vida, sentir toda a dor. Queria ouvir o vento, matar a saudade, mas no fim das contas, faltou tempo, e nem tempo para a morte sobrou, quem dirá para a tristeza falar aqui dentro. A dor gritava para ser sentida. 


Um segundo para pensar. Um minuto para respirar. Uma vida para viver. Mas falta tempo para a vida deixar de sê-la e tempo para a gente chorar. Tempo a mim. Esse texto acaba não porque as coisas precisam de fim, mas porque faltou tempo. Tempo para o texto ser texto, para a vida ser vivida, para a dor ser dor, e falta para o tempo.

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