Me livrei

Por Cristyam Otaviano - setembro 05, 2016

Ter a vida dependente de medicamentos, uma alegria que se baseia no fato de estar em um relacionamento com alguém ou mesmo ter sua sanidade graças a antidepressivos é sufocante. Nossa vida vira função de algo, uma variável externa, seja ela qual for,que nos mostra que não estamos no total controle da nossa vida. Algo, que não deseja coisas boa, parece sempre estar rondando, só esperando sua hora chega. Percebo que as vezes somos fracos, por não conseguimos manter-se sozinhos, por ora chega a ser verdade, por ora só chega a ser uma maneira teimosa nossa de levar a vida.



Aqueles ataques súbitos de ansiedade nas noites, os pensamentos suicidas que entrava em conflito com o sentimento de apreço pelos que tem apreço por nos, foram cicatrizes do tempo, que carrego eternamente comigo. O "reerguer-se" mostra que o aprendizado foi maior que a dor, ainda que essa quase tenha nos consumido. "Quem sete vezes cai levanta oito" já dizia Tiago Iorc.

O amor não correspondido, que nos fazia ganhar as ruas da cidade em busca de algo que pudesse suprir a ausência da dopamina, até era suficiente, mas depois retornava voraz assim nos levando a fazer aquilo que nunca faríamos em hipótese alguma, mas fizemos. O tempo mostrou que não saímos perdendo nada, pelo contrario, nos safamos da roubada.

A inércia nos impulsiona na vida e seguimos até que os problemas e dificuldades ficam pra trás. Chega uma hora que sentimos falta do que nos deixou ou que deixamos nesse movimento, sem começo e fim bem definidos. Nos sentimos estranhos, parece que falta alguma coisa, mas na verdade nos só voltamos ao nosso estado normal. É, o normal as vezes estranha.


Uma faxina rotineira de quarto, que tem como unica pretensão a de colocar as coisas no lugar, notamos o que realmente deixamos para trás, daquilo que nos livramos, damos conta de o quanto estamos vivos apesar da ausência de certas coisas na vida. Inertes na vida paramos e observamos que esse mundão, dar voltas, e voltas, e logo o fato de termos nos livrado das coisas fica ainda mais nítido.

Por ora lembrar de tudo nos arranca gargalhadas, ou um simples sorriso de canto de boca, ao selecionar as conversar do WhatsApp que nasceram lá no Match do Tinder e com o tempo descobrimos com quem estávamos lidando, ou mesmo quado aquele "estou com saudade" depois que descobrimos quem era o traste que chamávamos de querido. Ontem eu sofria, hoje eu sou frio. Aquele otário de ontem assiste aqui você e seu lindo castelo desmoronarem.

A vida é boa quando percebemos que, somente o fato de estarmos vivo, já nos alegra. Sentir-se feliz ainda que na ausência de antidepressivos, estando longe daquela pessoa que tínhamos apreço e que o tempo fez o favor de levar pra longe ou mesmo depois da prova que comeu nosso juízo, e ainda que tenhamos papocado, estamos leves por que a gente se livrou.


Os dias de cão acabaram. Recordar que passamos pelo que passamos, e permanecemos vivos, apesar dos pesares. Por fim deito na cama cansado, o quarto por fim arrumado, as memorias boas guardadas numa caixa na estante, os curativos e suprimentos de brigas passadas, junto daquilo que não nos faz mais bem, num saco de lixo, esperando para em fim ser levado para bem longe. 

Chega horas na vida que precisamos nos livrar do excesso de bagagem, daqueles volumes desnecessários, que não há motivos que justifique aquilo. Livre-se do que faz mal, deixa ir quem não te deu valor, coloque as coisas no seu lugar, faça o que você gosta de fazer e o que faz mal, livre-se e mesmo que se sinta estranho, perceba esse é você, essa é sua vida. E se olhar que seja para ver como a mudança é evidente e poder dizer: me livrei.


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